Relacionamento com Pacientes

Por Que Pacientes Faltam? 5 Motivos Reais Explicados

Guilherme Bayer
31 de janeiro de 2026
8 min de leitura
Psicóloga pensativa em consultório refletindo sobre absenteísmo

Introdução

Já parou para pensar por que seus pacientes faltam?

Não estou falando das desculpas do momento — "o trânsito tava horrível", "meu filho passou mal" — mas das razões mais profundas que levam alguém a simplesmente não aparecer para uma sessão de terapia sem avisar.

Se você atende particular no Brasil, provavelmente enfrenta uma taxa de faltas entre 20% e 30%. Isso significa que, de cada 10 sessões agendadas, 2 ou 3 não acontecem. E o pior: muitas vezes sem qualquer comunicação prévia.

Neste artigo, vou te ajudar a entender o que está por trás desse comportamento. Não para te dar uma solução pronta — isso fica para outro momento —, mas para que você compreenda melhor seus pacientes e desenvolva suas próprias estratégias baseadas no seu estilo clínico.

💡 Nota: Este conteúdo é baseado em estudos sobre absenteísmo terapêutico, experiência clínica e conversas com dezenas de psicólogos autônomos brasileiros.

Os 5 motivos reais por trás das faltas

1. Esquecimento genuíno (cerca de 80% dos casos)

Vamos começar pelo óbvio: a maioria das faltas não tem nada a ver com resistência terapêutica.

A vida moderna é uma avalanche de compromissos, notificações, prazos e obrigações. Para muitas pessoas, a sessão de terapia — marcada há uma ou duas semanas — simplesmente some da memória até algumas horas depois do horário.

Isso é especialmente comum quando:

  • O paciente está sob alta carga de estresse no trabalho
  • A sessão é semanal e cai em um dia atípico (ex: uma terça-feira quando o paciente está acostumado a pensar em terapia às quintas)
  • Não há nenhum sistema de lembrete ou confirmação prévia
  • A terapia ainda não virou um hábito consolidado (primeiros meses)

O que isso significa para você? Que a maioria absoluta das faltas não é pessoal. Não é sobre você como terapeuta, nem sobre o vínculo terapêutico. É simplesmente sobre a queda de memória em um mundo cada vez mais sobrecarregado de informações.

2. Resistência terapêutica (cerca de 10%)

Agora sim, vamos falar de dinâmica clínica.

Em cerca de 10% dos casos, a falta é uma manifestação de resistência. O paciente está enfrentando algo desconfortável na terapia, tocando em feridas que preferiria deixar quietas, e a ausência física é uma forma de fuga emocional.

Sinais de que a falta pode ser resistência:

  • Acontece logo após uma sessão intensa ou reveladora
  • O paciente mencionou tema difícil na sessão anterior
  • É um padrão recorrente (falta a cada 3 ou 4 sessões, como se criasse um "respiro" obrigatório)
  • Quando retorna, demora para voltar ao tema que estava sendo trabalhado

Importante: A resistência não é necessariamente negativa. É parte do processo terapêutico. O problema é quando ela se manifesta como falta sem aviso, porque isso impede que vocês trabalhem juntos essa dinâmica.

3. Questões financeiras não verbalizadas (cerca de 5%)

Este é um tema delicado e pouco discutido abertamente.

Alguns pacientes faltam porque estão com dificuldades financeiras, mas sentem vergonha ou constrangimento de admitir isso. Em vez de chegar até você e propor um ajuste no valor, uma pausa temporária ou uma negociação, eles simplesmente somem.

Situações comuns:

  • Perda recente de emprego ou redução de renda
  • Gastos inesperados que comprometeram o orçamento
  • Pacientes que "testam" a terapia mas não se sentiram seguros o suficiente para investir financeiramente
  • Dificuldade de priorizar o investimento em si mesmo quando há outras demandas familiares

A terapia ainda é vista por muitos como um "luxo" — algo importante, mas dispensável quando o orçamento aperta. Quando o paciente não se sente à vontade para falar sobre isso, a falta se torna a "solução" silenciosa.

4. Dificuldades logísticas reais (cerca de 3%)

Às vezes, a falta é genuinamente circunstancial.

Trânsito caótico em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, emergências de saúde de familiares, imprevistos no trabalho que exigem presença imediata — tudo isso pode inviabilizar uma sessão de última hora.

O problema não é o imprevisto em si, mas a falta de comunicação. Muitas vezes o paciente:

  • Percebe que não vai conseguir chegar apenas 30 minutos antes do horário e acha "tarde demais" para avisar
  • Está numa situação de emergência onde ligar ou mandar mensagem é a última prioridade
  • Viveu um dia tão caótico que só lembrou da sessão depois que já passou do horário

5. Insatisfação com o processo terapêutico (cerca de 2%)

Este é o motivo mais difícil de aceitar, mas precisa ser considerado.

Em uma pequena porcentagem de casos, o paciente falta porque não está sentindo que a terapia está funcionando. Pode ser uma desconexão com o seu estilo clínico, expectativas não atendidas, ou simplesmente a sensação de que não está havendo progresso.

Em vez de ter uma conversa difícil sobre desligamento, muitos pacientes optam pelo "sumiço gradual":

  • Faltam uma vez
  • Retornam com desculpas genéricas
  • Faltam de novo
  • Deixam de responder mensagens

Isso é frustrante para você como profissional porque nega a oportunidade de um encerramento ético e de feedback valioso sobre seu trabalho.

💬 Dica clínica: Quando um paciente retorna após uma falta, resistir à tentação de cobrar explicações imediatas. Às vezes, um simples "Que bom te ver. Como você está hoje?" abre espaço para o que realmente precisa ser falado.

O impacto emocional nas psicólogas e psicólogos

Antes de continuarmos, é importante reconhecer algo: as faltas machucam.

Mesmo sabendo racionalmente que a maioria é esquecimento, existe uma carga emocional quando alguém não aparece:

  • Frustração pelo tempo desperdiçado
  • Preocupação sobre o que aconteceu com o paciente
  • Autocrítica sobre se você fez algo errado
  • Angústia financeira pela renda perdida
  • Sensação de desrespeito pelo seu tempo profissional

Essas emoções são válidas. Você é um ser humano, não uma máquina de atendimento. Reconhecer isso é o primeiro passo para desenvolver estratégias que protejam tanto sua saúde mental quanto sua prática profissional.

Como identificar o padrão do seu consultório

Cada psicólogo tem um perfil de pacientes e um estilo de trabalho únicos. Por isso, vale a pena fazer uma análise própria:

Passo 1: Colete dados por 30 dias

Anotar simplesmente:

  • Quantas sessões foram agendadas
  • Quantas faltas ocorreram
  • Se houve aviso prévio ou não

Passo 2: Identifique padrões

  • As faltas acontecem mais em determinados dias da semana?
  • São mais comuns em primeiras consultas ou em pacientes de longa data?
  • Há relação com o horário (manhã, tarde, noite)?
  • Acontecem mais com determinados perfis de pacientes?

Passo 3: Reflita sobre suas próprias práticas

  • Como você confirma as sessões atualmente?
  • Sua política de cancelamento está clara desde o início?
  • Você abre espaço para conversas sobre valores e pagamentos?
  • Como você lida com retornos após faltas?

Quando a falta é um sinal clínico

Nem toda falta precisa ser "resolvida". Às vezes, ela é material terapêutico.

Quando um paciente falta e retorna, essa dinâmica pode ser explorada:

  • "Como foi para você não vir na terça e me ver hoje?"
  • "O que aconteceu na semana passada que fez a sessão ficar de lado?"
  • "Como você se sentiu quando percebeu que tinha perdido o horário?"

Essas perguntas, feitas sem julgamento, podem revelar:

  • Padrões de evitação do paciente
  • Dificuldades com compromissos e vínculos
  • Níveis de sobrecarga na vida dele
  • Dinâmicas de autossabotagem

A falta pode se tornar uma das sessões mais produtivas — se você estiver preparado para lidar com ela clinicamente.

A cultura brasileira e o absenteísmo

Vale um parêntese cultural: no Brasil, temos uma relação particular com horários e compromissos.

Nosso país tem uma tradição de "hora brasileira", de flexibilidade que, embora tenha suas raízes históricas e socioculturais, cria desafios específicos para profissionais autônomos.

Alguns fatores culturais que influenciam:

  • Priorização do imediato: Cultura de urgência onde o que está acontecendo agora sempre parece mais importante do que o que foi planejado
  • Dificuldade com limites: Tanto para dizer "não" quanto para cobrar compromissos
  • Tabu em falar de dinheiro: Constrangimento em discutir valores e dificuldades financeiras
  • Medicalização da terapia: Visão de que psicólogo é algo procurado só "quando está ruim", e não como prática regular de autocuidado

Entender esse contexto não é aceitar comportamentos que te prejudicam, mas ajuda a desenvolver estratégias culturalmente sensíveis.

Conclusão

As faltas de pacientes são uma realidade da prática clínica autônoma. Entender os 5 motivos principais — esquecimento, resistência, questões financeiras, dificuldades logísticas e insatisfação — te dá poder para:

  1. Não levar para o pessoal o que não é pessoal
  2. Identificar padrões específicos do seu consultório
  3. Desenvolver estratégias alinhadas com seu estilo clínico
  4. Usar as faltas como material terapêutico quando apropriado
  5. Proteger sua saúde mental e sua renda de forma ética

Lembre-se: você não pode controlar o comportamento dos seus pacientes, mas pode criar condições para que eles valorizem mais o processo terapêutico — e seu tempo profissional.


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